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Pavimentos de Concreto: Placas Grandes ou Pequenas?

Diego Schneider
Diego SchneiderEngenheiro Civil, Professor, Mestre com ênfase em Concreto Reforçado com Fibras

Placas Grandes ou Pequenas?

Na concepção estrutural de pavimentos de concreto, as juntas exercem a função primordial de controlar a fissuração induzida pelas movimentações de retração hidráulica e dilatação térmica (Rodrigues e Gasparetto, 2009). A definição do projeto geométrico, especificamente o comprimento das placas, dita o comportamento mecânico das juntas e exige do Engenheiro Civil a escolha correta do mecanismo de transferência de carga para garantir a longevidade do sistema e evitar patologias precoces, como o esborcinamento e o degrau sob as cargas móveis (Chodounsky, 2007).

A principal diferença no dimensionamento de pavimentos com placas de pequenas dimensões em comparação com as de grandes dimensões reside no método mecânico utilizado para garantir a continuidade estrutural, transferindo os esforços cortantes de uma placa carregada para a placa adjacente.

Placas Pequenas e o Intertravamento dos Agregados

Em pavimentos de concreto é comum a adoção de placas pequenas (Pitta, 1987), geralmente limitadas a comprimentos entre 1,5 e 5 metros para se adequar às características de retração do material devido ao menor comprimento, a magnitude da contração volumétrica é reduzida, resultando em aberturas de juntas transversais muito estreitas.

Essa pequena abertura possibilita que a transferência de carga ocorra naturalmente pelo contato físico direto entre as partículas de agregados graúdos nas faces fissuradas sob o corte da junta, um fenômeno mecânico conhecido como intertravamento ou entrosagem dos agregados (ACI, 1996).

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Contudo, a eficácia desse mecanismo é altamente sensível e depende de quatro variáveis estruturais fundamentais, conforme estudado por Colley e Humphrey (1967):

• Abertura da Junta: É o fator mais crítico. Para que o intertravamento seja eficiente, a abertura máxima da junta deve ser obrigatoriamente inferior a 1 mm (ACI, 1996). Se a junta abrir excessivamente, os agregados perdem o contato e a eficiência da transferência de cisalhamento cai drasticamente (Yoder e Witczak, 1975).

• Capacidade da Base/Sub-base: O uso de sub-bases mais rígidas, como bases tratadas com cimento (BGTC ou concreto rolado), melhora significativamente a eficiência do intertravamento (Colley e Humphrey, 1967). O suporte rígido minimiza as deflexões verticais diferenciais entre as placas, garantindo que o contato entre os agregados não seja perdido sob a ação cíclica das cargas.

• Espessura do Pavimento e Magnitude da Carga: A eficiência do intertravamento se reduz com o tempo, especialmente nas primeiras 500.000 aplicações de carga pesada, devido ao desgaste por atrito na face dos agregados (Colley e Humphrey, 1967). Uma espessura de placa adequada diminui as tensões cortantes na seção transversal, preservando o travamento.

• Tipo de Agregado: O formato dos agregados influencia diretamente a aderência mecânica na junta; agregados com alta angularidade (brita de rocha sã) proporcionam maior coeficiente de atrito interno e maior eficiência de transferência do que agregados arredondados (seixos) (Colley e Humphrey, 1967).

Quando a eficiência dessa transferência cai para menos de 60%, a placa passa a trabalhar em balanço sob o tráfego, acelerando fenômenos de bombeamento (pumping) da fundação, o que invariavelmente conduzirá à quebra dos cantos e ruptura das lajes.

Placas Grandes e a Necessidade de Barras de Transferência

Projetos modernos frequentemente optam por pavimentos com utilização de fibras no concreto, fazendo com que seja possível diminuir a espessura do pavimento e aumentar o comprimento das placas.

O alongamento das placas traz um desafio inerente: a variação volumétrica longitudinal é diretamente proporcional ao comprimento da laje, resultando em aberturas de juntas consideravelmente maiores, frequentemente superando os limites aceitáveis para o intertravamento (Chodounsky, 2007). Nessas condições, a entrosagem dos agregados torna-se ineficientes devido ao distanciamento das faces (ACI, 1996). Sem a transferência, a borda passa a trabalhar em balanço livre sob o tráfego, o que exigiria espessuras antieconômicas de concreto.

A solução mandatória para restabelecer a transferência de carga em placas grandes é a inserção de dispositivos mecânicos: as barras de transferência (Rodrigues e Cassaro, 1998). Elas consistem em barras de aço liso (usualmente aço CA-25), posicionadas rigorosamente no plano médio da espessura do concreto, atuando ativamente para absorver e transferir as forças cortantes (Rodrigues et al., 2006).

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Para que a placa não sofra fissuração por restrição de retração, pelo menos metade do comprimento dessas barras deve ser isolada (engraxada) para impedir a aderência ao concreto (Rodrigues et al., 2006). Isso permite que a junta abra e feche livremente no eixo longitudinal, bloqueando apenas os deslocamentos verticais diferenciais (Balbo, 2009).

O dimensionamento dessas barras leva em conta a espessura da laje, as cargas móveis, a resistência do concreto e do aço e o suporte da fundação, visando manter as tensões de esmagamento no concreto e as tensões de cisalhamento no aço dentro de limites normativos seguros (Huang, 1993).

Exemplo

Para ilustrar o comportamento mecânico da transferência de carga por intertravamento de agregados (sem o uso de barras de transferência), considere a análise de um pavimento de concreto com fibras com espessura de 14 cm.

O projeto pressupõe uma temperatura média de concretagem de 26°C e temperatura média de inverno de 17°C, submetido a um carregamento de 100 kN por eixo. A fundação possui um módulo de reação do subleito de 95.060 kN/m³, a retração do concreto é estimada em 0,03% e a interface entre a placa e a sub-base utiliza lona de polietileno, atuando como camada deslizante para reduzir o coeficiente de atrito. O projeto geométrico estipula placas com dimensão máxima de 200 cm.

Neste cenário base, o cálculo da variação volumétrica resulta em uma abertura de junta transversal de 0,52 mm. Sob essa abertura, a eficiência de transferência de carga proporcionada pelo contato entre as faces fraturadas atinge 73,64%. Em termos estruturais, isso significa que a junta consegue dissipar apenas 73,64% dos esforços cortantes para a placa adjacente, o que obriga a laje carregada a trabalhar parcialmente em balanço, elevando os momentos fletores atuantes na borda e, consequentemente, as tensões de tração no concreto.

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O Efeito do Aumento da Espessura da Placa

Mantendo as mesmas premissas geotécnicas e climáticas, ao majorar a espessura da placa de 14 cm para 16 cm, constata-se que a eficiência mecânica da junta salta expressivamente para 88,37%. A justificativa física para esse ganho é que o aumento da espessura da laje amplia a área da seção transversal sob a junta, proporcionando uma maior superfície de contato direto e atrito interno entre as partículas de agregados graúdos na face da fissura, otimizando a transmissão das tensões de cisalhamento.

O Efeito da dimensão da Placa

Por outro lado, retornando à espessura inicial de 14 cm, caso o projetista decida alongar a dimensão máxima da placa de 200 cm para 250 cm, o comportamento estrutural é severamente prejudicado. Como a magnitude da retração e da contração térmica é diretamente proporcional ao comprimento da placa, a abertura da junta se expande para 0,65 mm. Com esse maior distanciamento entre as faces, os agregados perdem o contato intrínseco, resultando em uma queda drástica da eficiência de intertravamento para 58,91%. É imperativo ressaltar que, na engenharia de pavimentação, quando a eficiência de transferência de carga cai para patamares inferiores a 60%, a junta é considerada deficiente, submetendo o sistema a deflexões diferenciais críticas que aceleram fenômenos patológicos como o bombeamento (pumping), o degrau (escalonamento) e a fratura de cantos.

Conclusão

A escolha entre placas pequenas e grandes não é apenas geométrica, mas estrutural. Placas pequenas eliminam a necessidade de barras de aço nas juntas, mas transferem a responsabilidade da estabilidade da borda para a qualidade da base, da espessura adotada e da integridade dos agregados. Por outro lado, placas grandes e de alto desempenho exigem o uso das barras de transferência em aço liso para garantir uma eficiência próxima de 100%, sendo a solução mais robusta para suportar elevadas cargas dinâmicas e o desgaste operacional a longo prazo.


Diego Schneider é Engenheiro Civil, Mestre com ênfase em concreto reforçado com fibras e Especialista em Patologia nas Obras Civis. É certificado como perito de estruturas de concreto pela Alconpat Brasil, Alconpat Internacional e IBRACON. Fundador e sócio da MDC Projetos, escritório especializado em projetos estruturais de médio e grande porte, com atuação no Brasil e no exterior. Fundador e CEO da Authenty Softwares, empresa focada no desenvolvimento de softwares para engenharia civil